Painel do Mundo
Por Roberto de Lara Rodrigues (29/04/2026)
A anatomia de um campeão

É com imenso prazer que venho aqui escrever aos amigos sobre um inédito Campeão Brasileiro de Futebol de Mesa 12 toques, o nada simples Nando! Em um campo que parece pequeno diante de grandes jogadores e em jogos decididos na ponta dos dedos, nasce algo muito maior que uma final: nasce a essência de um campeão. Não é apenas a precisão dos toques que o define, mas a disciplina silenciosa, a paciência nos momentos difíceis e a paixão que transforma cada jogada em propósito. Ser campeão no futebol de mesa é, acima de tudo, dominar a si mesmo antes de vencer qualquer adversário — e que adversário: Quinho, só este nome dispensa outros comentários, mas aqui vão alguns: maior recordista em finais, muitos títulos nacionais, mais novo campeão da categoria principal e o nome a ser batido na atualidade.
Durante as fases classificatórias, cada partida carrega mais do que um placar; carrega escolhas, controle emocional e a capacidade de pensar à frente. Enquanto muitos veem apenas um jogo, o verdadeiro campeão enxerga estratégia, aprende com cada erro e evolui rapidamente a cada desafio. Ele entende que a vitória não está apenas no resultado final, mas no caminho percorrido até lá. Há derrotas que ensinam mais do que troféus, e é nelas que o campeão se constrói. É no silêncio após uma jogada perdida, na repetição incansável dos treinos e na vontade de melhorar um pouco a cada dia que se forma a diferença entre participar e vencer.

Quando finalmente conquista seu espaço, o campeão não é apenas aquele que ganha títulos, mas aquele que inspira. Inspira pela dedicação, pelo respeito ao adversário, pela forma como encara o jogo com seriedade, mas também com amor pelo esporte. Amor tão grande que provoca descontrole, um choro copioso, uma comemoração antecipada. Emoção tão grande que cegou sua estratégia, fez tremer suas mãos, provocou seus primeiros erros dentro de uma partida que até ali estava quase perfeita. Tudo aceitável e entendível. Muitos vão às lágrimas contigo, campeão. Quem te conhece e sabe da sua história de amor e dedicação, sua vontade de vencer, de estar sempre entre os melhores e desfrutar de todo o glamour de ser um campeão, se emocionou contigo. Quinho também sente essa emoção e, como o grande jogador que é, foi o primeiro a te parabenizar pelo feito. Um abraço diante de intermináveis aplausos de um ginásio inteiro. Que momento!
Analisando a final, antes mesmo de ela começar, vemos alta concentração dos atletas. Estratégias pipocando na mente de cada um. Olhares tensos buscam os botões de segurança e já convocam mentalmente a se apresentarem. Início de Nando, uma jogada simples, sem o habitual risco da sua jogada marcante e característica, mas algumas surpresas estavam preparadas para esta final: uma esticada em volta da zaga sem cobertura, uma bolinha que vai pouco a mais para a linha de fundo e o chute não está apontado. Nando olha, respira, analisa e pede com firmeza, mas fantasmas do passado assombram o momento.

Em 2023, contra o mesmo adversário, contra o empate, contra uma saída de bola no segundo tempo, uma bola mal arrumada e um chute errado colocaram tudo a perder — eliminação precoce. Mas, desta vez, não. Convicto de que pode fazer o gol, Nando prepara o chute e só pensa no gol, no acerto e nesse tão importante 1 a 0. Chuta com maestria, por cima do goleiro, cruzado, e um alívio para a alma. Estou aqui, estou bem, estou confiante, repete para si mesmo enquanto arruma a zaga.
O empate vem cedo; Quinho passa pela defesa como quer e arruma uma bola perfeita para o empate, gol certo. Em nova saída de bola, agora pelo outro lado, Nando só pensa em arrumar uma bola perfeita de ponta, novamente sem correr risco. Chega pela lateral da área, prepara e... mais uma bola torta e com um agravante: seu botão atrapalhando. Antes mesmo que pensamentos negativos viessem à sua mente, ele foca: vou chutar igual; se acertar duas bolas tortas, fico gigante. E assim o fez. Mais um gol por cima, cruzado, no pouco espaço que tinha, está à frente no placar.

Quinho arruma nova bola perfeita, encobre o goleiro e empata de novo. Para a terceira saída, Nando quer sua bola de segurança; chega de surpresas. Faz sua jogada treinada (e por muitos admirada), tira a zaga da frente e tem a bola do meio, com todas as opções de chute. Faz o gol e sente a confiança aumentar, sente a proximidade do tão sonhado título.
Um erro de finalização de Quinho e a chance de aumentar a diferença no placar. Mais velocidade que o necessário, ansiedade a todo vapor, toques quase afobados e uma chance de ampliar — golaço. Sai comemorando e torcendo para a campainha tocar. Quinho não sente medo, arruma a bola em menos de 10 segundos e pede a gol, com a pressão toda pra cima dele. Num chute de longa distância, perdendo de dois gols de diferença, final do primeiro tempo iminente e, com a excepcional habilidade de sempre, marca um golaço e balança a cabeça positivamente como quem diz: "também estou aqui; para me vencer, vai ter que jogar muito".

Começo de segundo tempo, Quinho só pensa no empate imediato, Nando pensa em continuar na frente. Erros atípicos de ambos os lados até Nando abrir três gols de diferença. Nesse instante, Nando sabe que a espera acabou; foram quase dez anos de busca pelo objetivo máximo. Muitas campanhas maravilhosas, sempre chegando entre os melhores da Ouro, faltava muito pouco para o topo. O que faltava? O fator mental foi treinado, a preparação e a estratégia na escolha do novo grau foram cirúrgicas. O planejamento foi bem calculado. Hora da prática. Não existe mais a pressão, não sente mais o peso da batalha, não escuta nada em volta e nem enxerga ninguém. Impossível segurar a emoção; o grito é o prelúdio da vitória, da sua maior conquista individual. Nando agora é Campeão Brasileiro Absoluto. Carrossel de emoções, montanha-russa de sentimentos, a ficha nem cai direito, mas a alegria transborda.
Missão cumprida, Nando, você é gigante e é Campeão Brasileiro. Seja bem-vindo ao seleto time dos grandes jogadores que têm seus nomes no "quadrinho". Fez história, PARABÉNS!
Biblioteca de "Jeito & força"
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Natural de Guarapuava-PR, Roberto de Lara Rodrigues é bacharel em Educação física e o maior campeão individual de todos os tempos na modalidade 12 toques, tendo conquistado seis Campeonatos Brasileiros e seis Copas do Brasil. A genialidade e aptidão para as palhetadas vêm de família: Além de ter podido contar sempre com os conselhos do pai, Nilson Rodrigues (maior campeão Brasileiro máster da história), Robertinho tem no primo, Rogério Nascimento (ex-campeão Brasileiro e Mundial) um grande parâmetro e um afiado parceiro de treinos para as grandes competições. Aqui no Portal Mundo Botonista, Rodrigues brinda a comunidade do futebol de mesa com crônicas exclusivas para a coluna Jeito & Força. Ele também oferece um curso chamado Método Robertinho de Futebol de Botão que pode ser consultado no link http://go.hotmart.com/M59466542Q?dp=1
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robertinho@mundobotonista.com.br



































