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MUNDO BOTONISTA
Botão_raiz

Por Márcio Bariviera (23/08/2026)

A mudança

Era sempre difícil entender os adultos. Os pais, estabelecidos e prósperos em uma cidade, de repente, precisariam se mudar novamente. Embora o menino já estivesse acostumado diante do ofício de seu pai, sempre doía deixar seus amigos, os lugares preferidos e as raízes que mal tinham tempo de se aprofundar antes de serem arrancadas pelo próximo destino.

A mudança chegou numa manhã silenciosa, com caixas empilhadas e ruas desconhecidas pela janela. Para o menino, a nova cidade parecia grande demais, e a escola, a qual ele ainda não conhecia, era uma espécie de território a ser conquistado. E em meio ao medo e à insegurança do novo, ele carregava uma certeza pequena e brilhante: onde houvesse chão liso, haveria futebol de botão.

No primeiro dia de aula, as palavras ficaram presas na garganta. Exatamente como fora nas outras vezes. Os colegas já tinham seus grupos, suas piadas internas, seus recreios combinados. Ele observava de longe, desenhando campos imaginários com o olhar, como quem ensaiava um plano para conquistar jardas e, por que não, descobrir-se por trás de tantos rostos novos, diferentes e indiferentes, pensando que poderia haver alguém, ali, disposto a dividir a mesma solidão. 

Em casa, à noite, abriu a velha caixa de botões como quem abre um álbum de coragem. Limpou cada peça, alinhou os times, testou toques no chão do quarto novo. Ali, tudo ainda obedecia às mesmas regras de sempre, e isso acalmava o seu pensamento quanto ao dia seguinte. No silêncio daquele quarto ainda frio, o estalo seco da palheta contra o botão soava como um aperto de mão entre o passado recente que ficará para trás e o presente que ele ainda estava conhecendo.

Rezou à noite para que alguém o convidasse para jogar e levou sua caixa de botões na escola no dia seguinte. E Deus, talvez o seu anjo da guarda, o atendeu rapidamente na deliciosa hora do recreio. Um colega de classe se aproximou, notou a caixa aberta e perguntou se ele jogava. Seus olhos brilharam e foram seguidos de um “sim” que soava como um agradecimento eterno. E naquele instante o mundo ficou menos pesado.

Em poucos minutos foi cercado por outros meninos e as amizades começaram a desabrochar. Surgiram convites para jogar com a turma do bairro na parte da tarde, já que as aulas ocorriam pela manhã. Ele não apenas contava os minutos, mas as partidas que viriam pela frente, enxergando a cada convite a certeza de que o futebol de botão era, na verdade, a bússola que sempre o levaria de volta para casa, não importando em qual cidade o caminhão de mudança o deixasse.

Na vizinhança, a fama correu rapidamente: havia um garoto novo que jogava bem. Não era sobre ganhar, mas descobrir que a cada encontro ou partida ele estava costurando o seu lugar naquele mundo recente que ainda precisava ser explorado. E assim, a cidade, antes estranha, começava a caber no seu bolso.

A parte boa, talvez excelente: o mundo lá fora nunca era a nossa prioridade. O mundo de verdade estava no arrastar de joelhos e cotovelos ao chão. A gente não se importava com a invasão de um país no território do outro; bomba era apenas um canhão do Roberto Dinamite de plástico e corrupção só acontecia quando roubávamos um punhado de pipoca da bacia que ficava ao lado do campo.

Quando percebeu, a solidão tinha mudado de endereço. Entre um toque e outro, ele aprendeu que amizades às vezes começam simples, do tamanho de uma bolinha preta de plástico deslizando no chão. E que mudar de cidade não apaga quem a gente é — só amplia o jogo.

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Marcio Bariviera

O gaúcho de Rodeio Bonito, Marcio Bariviera é gerente administrativo do União Frederiquense, clube que disputa a Série A2 do Gauchão, além de assinar uma coluna semanal no jornal O Alto Uruguai, de Frederico Westphalen-RS. Rock e futebol de botão são duas paixões desde a infância (e se puder dar palhetadas ouvindo Led Zeppelin fica time completo).

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marcio_bariviera@mundobotonista.com.br
(055) 99988-6612

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